Créditos: Preciosa Lourenço
Direitos autorais registados.
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Um passo para frente, e outros milhares para trás.
Talvez me tenha esquecido de como se anda, porque as minhas pernas não se movimentam, isso não me parece estar a resultar. O que será que comigo se passa?
Devo estar perdido na minha consciência, nem sequer devo estar mesmo a andar. Mais parece um sonho do que uma outra coisa similar, a realidade não me parece se estar a instalar. Preciso de apanhar ar, mas como? Se também acho que devo voltar a aprender a respirar? Perdi o remoto controlo do meu corpo. Acho que consigo acha-lo, se por acaso procura-lo pela casa, talvez o encontre na minha cama ou debaixo de alguma almofada.Tudo isso é tão confuso. Mas, já sei o que fazer.
Talvez deva responder a mensagem que mandaste-me no dia... no dia... (que dia mesmo?) Lembro-me que era Abril, pois os pássaros cantavam e Sol brilhava intensamente no céu. Vou tomar a liberdade de voltar a nostalgia dos tempos passados, reviver os sentimentos lindos e tristes, enrolados e esmiuçados no quadrante de paredes que por nós fora abandonado. Vou para o meu quarto, reviro as minhas gavetas ao fim de encontrar a felicidade das chaves do nosso antigo shelter. Enquanto incerto e com a cabeça insegura da decisão que tomei, conduzo até o mesmo com um total resfriado e um calafrio medroso nos meus pelos do corpo, o medo deve-se ao facto de talvez não conseguir ultrapassar as dúvidas, possíveis transtornos e talvez incertezas, que posso alcançar quando ao shelter chegar.
Chego ao shelter, furto para mim alguns minutos de respiração profunda a frente da porta, no momento em que o meu braço direito move-se e retira a chave do bolso de trás da calça e abre-a. Ao entrar no apartamento, um som de piano dramático é tocado na minha mente, um como aqueles que eram costumeiros ouvirmos nas tardes de fim de semana antes de sairmos, ou de irmos aos nossos encontros religiosos termos com os nossos irmãos em Cristo. Noto que aqui estiveste, ainda sinto o perfume das noites frias que passamos enrolados ao lençol, aconchegados um ao outro no cadeirão da sala enquanto assistiamos TV a noite a fora. Vou pelo corredor, evitando esbarrar nas caixas de livros empoeiradas a amontoadas pelo corredor em diante, abro todas as janelas de forma a deixar entrar algum ar nesse pobre apartamento, sinto a pareidolia em mim em efeitos ilusórios, enquanto vejo formas nas nuvens e caras sem expressões nos quadros espalhados pelas paredes castanhas da sala.
Sento na minha poltrona castanha velha, que ficava voltada para TV perto da porta da cozinha, enquanto lembro dos momentos que sentavas aqui no meu lombo e eu punha o caderno nas tuas pernas e escrevia, escrevia acerca da nossa vida... Nunca mais escrevi. Tenho sentido a cabeça pesada, as mãos trêmulas e o corpo atordoado. Os olhos cansados com a visão gasta, a mente abalada e em constante colapso em todas as madrugadas. Porque motivo será? Não sei. Será que o estresse da escola para adultos se apoderou de mim de tal forma, que nem mais consigo imaginar personagens moventes em papeis brancos inanimados? Já faz tanto tempo que não tiro algum tempo para mim, tenho estado atarefado com todos aqueles projectos que tinha começado, lembras-te? Talvez não, já foi a um tempão... Noto na mesa a marca da chávena no meio da poeira, acho que quando aqui estiveste bebeste café, pousaste a chávena na mesa e apreciaste a deterioração das nossas memórias e do nosso apartamento.
Acabo de escrever a minha carta e deixo rasurado no verso "espero uma resposta", pouso-a sobre a mesa empoeirada e deixo-a aí... na esperança de um dia voltares ao apartamento para terminares a mudança e assim mandares com o estafeta a minha resposta. Vou em direção a porta, tranco-a e volto para fora, enquanto os meus passos rementem-me as escadas do prédio ao qual desabituei-me a morar, mesmo após passar uma eternidade temporal dentro do mesmo, de casa já não o consigo chamar. Passo a passo, descendo os degraus intermináveis com uma perna para cima e outra para baixo, distancio-me cada vez mais, deixando para trás, talvez de uma vez por todas, todos os demônios do nosso antigo lar, ao qual "Shelter" já não o consigo chamar...
- Primeira Parte - http://poesiadarotina.blogspot.com/2016/04/uma-ultima-carta-ao-demonio-creditos.html (Início)

Resposta aguardada por tantos meses, hoje seu corpo teve paz... Lindo e incorrigível,
ResponderEliminarRest in peace shelter... bgdo babe ❤👌
EliminarQuem escreveu ?
ResponderEliminarFui eu. Diandro Monteiro.
EliminarIsso é um dom. Também estou a começar a escrever
ResponderEliminarMuito obrigado pela apreciação da minha arte mano, fico-te agradecido. Escreve mesmo, escrever é bom, é relaxante, e faz com que fiquemos mais em contacto com aquilo que é o nosso "eu interior", espero um dia poder tbm ler algo que sejas tu a escrever. Ficarei a espera.
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